domingo, 31 de outubro de 2010

Águas-vivas - Uma Visão Ambiental [AULAS 7 e 8 ]


Comunicando os achados das pesquisas

A comunicação dos argumentos construídos durante o processo de pesquisa é fundamental para a validação dos mesmos. Comunicar a hipótese elaborada pelos estudantes e os resultados obtidos durante o processo de pesquisa e construção dos argumentos possibilita que os mesmos sejam partilhados entre o grande grupo classe e revistos pelos pequenos grupos. Durante a apresentação das pesquisas, cabe ao professor estimular os grupos a questionarem as pesquisas uns dos outros, especialmente nos casos de levantamento de hipóteses.
A interação entre os alunos durante a apresentação, além de favorecer a construção dos conceitos por meio da argumentação também resgatará a vivência do método científico, dado que a Ciências é uma produção humana na qual não existem verdades absolutas, mas proposições, hipóteses, e que o trabalho coletivo é fundamental para a construção do conhecimento.
Aconselho também a adoção de práticas que oportunizem momentos para que os pequenos grupos refaçam e/ou revejam suas pesquisas após a comunicação para a sala. Neste contexto, o refazer requererá que os alunos assumam uma postura crítica para julgarem a pertinência dos comentários de seus colegas e também abre possibilidades para que os grupos busquem caminhos que não foram percebidos antes.


Integrando conceitos

Ao final das apresentações dos alunos, retome os conceitos por eles abordados, relacionando as atividades humanas indicadas com o aumento (ou diminuição) das populações das águas-vivas. Como cada grupo pesquisou com maior afinco apenas uma ação antrópica e suas conseqüências ambientais, os estudantes poderão ter alguma dificuldade em relacionar suas pesquisas com as dos colegas. Neste aspecto, a integração de idéias pode ocorrer através da construção de mapas conceituais, que favorecerão a compreensão global das relações entre as atividades humanas e os ecossistemas, assim como a ação sinérgica das mesmas.
Mapas conceituais são diagramas em que relacionamos conceitos de maneira hierárquica, possibilitando relacionar os conceitos específicos aos abrangentes. Todavia não existe um mapa conceitual correto, visto que cada indivíduo constrói seu mapa com base na significação e importância que atribui aos conteúdos. Nas palavras de Marco Antonio Moreira:

Como a aprendizagem significativa implica, necessariamente, atribuição de significados idiossincráticos, mapas conceituais, traçados por professores e alunos refletirão tais significados. Quer dizer, tanto mapas usados por professores como recurso didático como mapas feitos por alunos em uma avaliação têm componentes idiossincráticos. Isso significa que não existe mapa conceitual “correto”. Um professor nunca deve apresentar aos alunos o mapa conceitual de um certo conteúdo e sim um mapa conceitual para esse conteúdo segundo os significados que ele atribui aos conceitos e às relações significativas entre eles. De maneira análoga, nunca se deve esperar que o aluno apresente na avaliação o mapa conceitual “correto” de um certo conteúdo. Isso não existe. O que o aluno apresenta é o seu mapa e o importante não é se esse mapa está certo ou não, mas sim se ele dá evidências de que o aluno está aprendendo significativamente o conteúdo.

Neste contexto, ao utilizar as produções dos alunos (os mapas conceituais) como ferramentas de avaliação, auxiliará o professor a compreender se seus estudatnes estão aprendendo significativamente ou não. Todavia, dado à sua singularidade, os mapas conceituais não devem ser avaliados como uma questão de múltipla escolha. É necessário ir além! Isto é, avalia-los qualitativamente buscando entender como seus alunos apreenderam os conteúdos abordados ao longo da seqüência de ensino proposta. (Para maiores informações sobre mapas conceituais, acesse o trabalho de Marco Antonio Moreira clicando aqui).


domingo, 24 de outubro de 2010

Blooms de águas-vivas - De Volta para o Passado?

As pesquisas desenvolvidas pelos cientistas estadunidenses Carol Lalli e Tim Parsons sobre ecossistemas marinhos e populações de águas-vivas os levaram a desenvolver a hipótese de que se o homem continuar a estressar o meio ambiente com suas ações (como as citadas neste texto), os oceanos serão “empurrados” de volta para o Cambriano. Segundo os cientistas, se as alterações climáticas, a eutrofização das águas e a pesca excessiva persistirem, estas ações atuarão de maneira sinérgica, criando condições ambientais como as que provavelmente existiram a aproximadamente 550 milhões de anos atrás. 
Os oceanos do período Cambriano eram quentes e eutróficos, sendo o fitoplâncton dominado pelas cianobactérias e pelos protistas flagelados. Neste período, os peixes eram ausentes, assim como a maioria das ordens de zooplâncton modernas, que só surgiram durante a Era Mesozóica, e irradiaram-se durante o Cenozóico no momento em que as diatomáceas e outros componentes do fitoplâncton começaram a dominar a produção primária. Peixes da ordem Clupeomorpha como anchova, arenque e sardinha, por exemplo, que atualmente são explorados pela indústria pesqueira a nível mundial, só apareceram durante o Cretáceo, a 100 milhões de anos atrás.
A história evolutiva das águas-vivas, segundo os registros fósseis, remonta entre 540 e 500 milhões de anos atrás e, possivelmente, para a o período anterior à fauna de Ediacara. Provavelmente durante o Cambriano, as águas-vivas eram as principais predadoras dos ecossistemas marinhos e, mesmo com o surgimento de várias espécies durante a história da vida na Terra, estes organismos persistiram e persistem nos oceanos, possivelmente devido ao conjunto de atributos que tornam as águas-vivas competidoras muito eficientes em ambientes adversos como, por exemplo, alta diversidade alimentar e tolerância às baixas concentrações de oxigênio.
Se Carol Lalli e Tim Parsons tiverem razão, então as atividades humanas estão alterando o equilíbrio dos ecossistemas modernos dominados por diatomáceas e peixe para sistemas mais primitivos, com abundância de flagelados e medusas. É irônico que as mesmas atividades que conduziram à rápida industrialização e aos avanços tecnológicos estão ameaçando empurrar ecossistemas marinhos de volta para o passado no futuro.


A evolução das cadeias alimentares pelágicas do Cambriano (simples cadeias alimentares, com águas-vivas como os predadores de topo) até o presente (mais cadeias alimentares complexas, com peixes e animais derivados como predadores de topo). Adaptado de Richardson et al (2009), p. 318.

domingo, 17 de outubro de 2010

Blooms de águas-vivas - Poluição e Mudanças Climáticas

POLUIÇÃO 

A poluição das águas marinhas, especialmente nas regiões costeiras, pelo lançamento de esgotos doméstico e industrial e pelo carreamento de produtos agropecuários causa alterações nos ecossistemas marinhos, acarretando em desequilíbrios populacionais.
Um dos problemas causados pela poluição que possibilita que as populações de águas-vivas aumentem demasiadamente é a eutrofização. A matéria orgânica presente tanto nos esgotos como nos produtos agrícolas é rica em nutrientes como nitratos e fosfatos, acarretando no enriquecimento exacerbado de nutrientes nos ecossistema e provocando o crescimento populacional de organismos que compõem o fitoplâncton. 
Em decorrência da proliferação (bloom) do fitoplâncton marinho (produtores), as populações que compõem o zooplâncton (consumidores primários) encontram condições favoráveis para o seu crescimento, visto que a oferta de alimentos é maior. Todavia, há diminuição das dimensões médias dos organismos que constituem estes dois níveis tróficos. Isto ocorre porque apesar do enriquecimento de nitratos e fosfatos, há deficiência na concentração de silicatos, nutrientes essenciais para a reprodução e o desenvolvimento de diatomáceas. Sob estas condições ambientais, as algas unicelulares (protistas como os dinoflagelados, os responsáveis pelo fenômeno da maré-vermelha) proliferam de tal modo que podem substituir as populações de diatomáceas, resultando em uma redução do tamanho dos indivíduos que constituem o nível dos produtores.
Porém, teias tróficas baseadas em cianobactérias e protistas dinoflagelados impossibilitam a sustentação da diversidade de consumidores marinhos secundários e terciários (ou de níveis mais altos) como peixes, mamíferos marinhos, tartarugas e aves marinhas, por exemplo, devido ao menor tamanho médio dos produtores disponíveis e à qualidade nutricional dos mesmos, tornando o ecossistema mais favorável as águas-vivas. Estas alterações propiciam o aumento populacional destes organismos porque as águas-vivas têm a capacidade de se alimentar de uma grande variedade de presas, incluindo protistas como os dinoflagelados.
Todavia, as populações excessivas de fitoplâncton (resultantes do enriquecimento nutricional do meio) podem não ser totalmente consumidas, sendo degradadas por bactérias na região bentônica, ocasionando em hipóxia localizada.
Esta baixa disponibilidade de oxigênio dissolvido na água favorece o estabelecimento de populações de pólipos e medusas, uma vez que estes possuem maior tolerância às condições de hipóxia em relação aos peixes e/ou aos outros organismos marinhos. Desta maneira, as águas-vivas podem sobreviver e se reproduzir em ambientes nos quais estarão livres de competição e predação devido às novas condições ambientais, o que contribui com o aumento populacional.
A figura abaixo traz um esquema sobre como a eutrofização das águas oceânicas contribui para o crescimento exacerbado de águas-vivas. A figura também relaciona o aquecimento global aos blooms de águas-vivas (este assunto será melhor abordado no próximo item deste texto).
Como exemplo do surgimento de superpopulações de águas-vivas em decorrência da eutrofização das águas oceânicas, podemos citar o ocorrido no Golfo do México no o verão de 2007. As águas poluídas do rio Mississipi ao desembocarem no mar resultaram na proliferação das populações de fitoplâncton, gerando 25 mil km2 de “zonas mortas” (regiões marinhas com baixo ou nenhum oxigênio dissolvido na água). Com o número crescente de “zonas mortas” surgindo no mundo inteiro desde a década de 1960, principalmente devido à eutrofização, um número crescente de habitats favoráveis à proliferação de águas-vivas são disponibilizados a estes organismos em todo o globo.

Resumo dos impactos da eutrofização e das alterações climáticas sobre o crescimento populacional de águas-vivas. Adaptado de Richardson et al (2009), p. 315.


MUDANÇAS CLIMÁTICAS

O aquecimento global tem afetado todos os ecossistemas do planeta com o aumento da temperatura média em todo o globo. Nos ecossistemas marinhos, as mudanças climáticas provocam a estratificação das águas oceânicas, isto é, as águas superficiais tornam-se quentes provocando a precipitação de nutrientes. Desta maneira, há a mudança da estrutura dos ecossistemas marinhos, tornando as águas da superfície quentes e pobres em nutrientes e as águas profundas, frias e nutricionalmente ricas.
Sob estas condições ambientais, ocorrerão as mesmas alterações ambientais descritas anteriormente: a dominância de protistas, como os dinoflagelados, em detrimento das diatomáceas. Esta dominância se daria devido à capacidade dos protistas que compõem o fitoplâncton em realizar migrações verticais na coluna d’água, favorecendo tanto o aproveitamento da energia solar na superfície como o de nutrientes em águas mais profundas.
O favorecimento das populações de protistas dinoflagelados em decorrência das mudanças climáticas pode favorecer o crescimento populacional das águas-vivas devido às alterações das estruturas tróficas, como abordado no item anterior. Todavia, segundo estudos desenvolvidos pelo pesquisador estadunidense Jennifer Purcell e seus colaboradores, o aquecimento das águas oceânicas também favorece o crescimento populacional das águas-vivas, uma vez que em temperaturas elevadas o desenvolvimento das medusas é mais acelerado e a geração de éfiras torna-se mais intensa. Desta maneira, com maior oferta de alimentos e novos indivíduos medusóides surgindo e desenvolvendo-se rapidamente, blooms de águas-vivas serão cada vez mais freqüentes caso estas condições ambientais persistam no futuro.
Aliado a estes desequilíbrios, as alterações climáticas também contribuem para a expansão do habitat das águas-vivas, especialmente às de regiões tropicais e subtropicais. Segundo Anthony Richardson e seus colaboradores, águas-vivas do gênero Chinorex – conhecidas como vespas-do-mar – habitam o norte da costa leste australiana, mas com o aquecimento das águas o habitat destes organismos pode expandir para áreas mais ao norte, para regiões subtropicais e temperadas. Um dos problemas desta expansão é que as espécies pertencentes ao gênero Chinorex são altamente venosas, podendo provocar mortes dos banhistas. Sendo assim, caso estas populações cresçam demasiadamente e expandam seus habitats, praias poderão ser fechadas, ocasionando crises econômicas devido às quedas no turismo.



sábado, 9 de outubro de 2010

Blooms de águas-vivas - Modificação de Habitats e Translocação de Organismos

MODIFICAÇÃO DE HABITATS 

Na fase de pólipos, os cnidários apresentam modo de vida séssil, requerendo a presença de substrato para sua fixação. Esta característica nos possibilita imaginar que o aumento de habitats bentônicos adequados para a fixação de pólipos (e larvas) poderia, teoricamente, favorecer a proliferação destes indivíduos que, por sua vez, acarretaria no aumento da população de águas-vivas. 
Anthony Richardson e seus colaboradores relatam em sua pesquisa que há poucas evidências científicas que comprovem tal raciocínio. Porém, o pesquisador chinês Wen-Tseng Lo e colaboradores demonstraram no ano de 2008 que a população da água-viva Aurelia aurita aumentou nas proximidades da ilha de Taiwan devido à proliferação de pólipos. O aumento do número destes ocorreu devido à ampliação de habitats, dado que os pólipos cresciam fixos em redes e em outros suportes utilizados em operações de maricultura daquela ilha. Fato parecido com este fora relatado também no ano de 2001 pelo pesquisador estadunidense William M. Graham. Segundo o cientista, as plataformas petrolíferas encontradas no Golfo do México propiciaram aos pólipos a colonização de habitats mais profundos em que as condições físicas eram mais favoráveis ao seu crescimento e sua proliferação. Em decorrência deste fato, William Graham sugeriu que o aumento das populações de Chrysaora quinquecirha e Aurelia aurita estava relacionado com a proliferação de pólipos.
 Aurelia aurita
Chrysaora quinquecirha 

Desta maneira, são necessários maiores estudos para verificar a correlação da proliferação de pólipos, por ocasião da introdução e modificação de habitats, e os blooms de águas-vivas, buscando compreender se os fenômenos como os descritos acima se constituíram em casos isolados ou em tendências que podem ocorrer a nível global.


TRANSLOCAÇÃO DE ORGANISMOS 

A movimentação humana pelo planeta tem levado espécies de um ambiente para o outro, comprometendo assim o equilíbrio ecológico. Em ecossistemas marinhos, a translocação de espécies ocorre principalmente pela troca da água de lastro dos navios (que contem organismos) e pelo transporte da biota incrustante, isto é, dos seres vivos que se fixam nos cascos das embarcações como, por exemplo, os pólipos.  
Algumas espécies de águas-vivas, especialmente as do filo Ctenophora, são resistentes às trocas da água de lastro e, na maioria das vezes, tornam-se verdadeiras “pragas” em regiões distantes de seus habitats naturais, alterando o equilíbrio ecológico local, causando impactos negativos na pesca e em outras atividades econômicas. Tal fato ocorre porque em novos habitats, as águas-vivas ficam livres de competidores e de predadores naturais, e em condições favoráveis acabam dominando o ecossistema marinho local.  
A pesquisa desenvolvida pela dupla de pesquisadores estadunidenses William M. Graham e Keith M. Bayha no ano de 2007 ilustra o problema da translocação de indivíduos, especialmente de águas-vivas. Segundo os cientistas, a água-viva da espécie Phyllorhiza punctata, natural do Oceano Pacífico, tornou-se um grande incômodo após a sua translocação para o Golfo do México. Pesquisas realizadas nesta área entre os meses de maio a setembro do ano de 2000 estimaram um total de cinco milhões de águas-vivas em 150 km2. O maior impacto econômico causado por esta proliferação de águas-vivas foi o entupimento e o rompimento das redes de pesca de camarão, acarretando na perda de milhões de dólares da indústria pesqueira.  

Bloom de Phyllorhiza punctata 

Detalhe de um indivíduo adulto 

Bloom de Phyllorhiza no Golfo do México em Agosto de 2000

Bloom de Phyllorhiza próximo ao estado de Louisiana (EUA) no verão de 2000


Para a próxima postagem, "Poluição" e "Mudanças Climáticas".

domingo, 3 de outubro de 2010

Blooms de águas-vivas - Pesca Predatória


Pesquisadores da Universidade de Queensland, na Austrália, divulgaram em trabalho publicado na revista Trends in Ecology & Evolution no ano de 2009 uma pesquisa que mostra que os oceanos estão rapidamente sendo infestados por águas-vivas (Clique aqui para acessar a pesquisa).
Segundo Anthony J. Richardson, Andrew Bakun, Graeme C. Hays e Mark J.Gibbons, autores da investigação, tal fenômeno está relacionado às alterações ambientais provocadas por ações antrópicas como, por exemplo, a pesca excessiva, a modificação de habitats, a translocação de seres vivos e a poluição. A pesquisa também sugere que as alterações climáticas podem contribuir significativamente com o aumento das populações de águas-vivas em todo o globo, conduzindo a um colapso no ambiente marinho.
De acordo com os cientistas, as águas-vivas são importantes componentes dos ecossistemas pelágicos, uma vez que estas estabelecem várias e complexas relações ecológicas com outros organismos marinhos. As densas agregações (ou blooms) de águas-vivas são características naturais e saudáveis dos ecossistemas marinhos, uma vez que representam a chegada dos indivíduos à fase adulta, sendo este fenômeno observado comumente na primavera. Todavia, nos últimos anos este acontecimento fora relatado, seja pelos estudos científicos, seja pela mídia, com maior freqüência e severidade em todos os oceanos do planeta, especialmente nos mares orientais. Segundo Anthony Richardson e seus colaboradores, isto é reflexo da diminuição de espécies que atuam como competidores e predadores de águas-vivas.


PESCA PREDATÓRIA
A pesquisa realizada por Anthony Richardson e seus colaboradores em parceria com o Centro de Pesquisa Marinha da Austrália, constatou que a remoção anual de 100 a 120 milhões de toneladas de vida marinha em todo o planeta nas últimas duas décadas contribuiu (e contribuirá, caso persista) significantemente para desequilíbrios nos ecossistemas marinhos, especialmente no domínio pelágico.
Estes desequilíbrios propiciam a proliferação de águas-vivas, visto que ao eliminar populações inteiras de peixes, ou parte destas, criam-se condições para que as águas-vivas conquistem novos habitats. Anthony Richardson e parceiros relatam em sua pesquisa que 124 espécies de peixes e outras 34 espécies de outros animais marinhos se alimentam ocasional ou predominantemente de águas-vivas. Destes, 11 espécies de peixes são especialistas de águas-vivas, isto é, alimentam-se exclusivamente destes animais. Os principais predadores de indivíduos adultos (medusas) são as tartarugas (especialmente a tartaruga-de-couro – Dermochelys coriacea – que geralmente é encontrada nas proximidades de blooms de águas-vivas), os tubarões e o atum; e, peixes pelágicos de pequeno porte que nadam em cardumes como anchovas e sardinhas, por exemplo, também auxiliam no controle populacional de águas-vivas uma vez que se alimentam de larvas e de éfiras.
Diante desta variedade de predadores, a dinâmica de predação nos ecossistemas marinhos poderia atuar no controle do número de águas-vivas, visto que os predadores poderiam limitar a população de presas (população-recurso). Nesta perspectiva, teríamos populações de presas (águas-vivas) e predadores em equilíbrio, apresentando aumentos e diminuições regulares em seus ciclos populacionais. Porém, a retirada de predadores dos ecossistemas pelágicos através da pesca excessiva possibilita que mais indivíduos cheguem à vida adulta e se reproduzam, aumentando demasiadamente a população.
Todavia, a população de animais que competem pelos mesmos recursos ecológicos que as águas-vivas poderiam atuar no controle populacional destes animais, mas assim como os predadores, os competidores são retirados dos ecossistemas, possibilitando uma maior oferta de alimentos para as águas-vivas, fato que contribui para o aumento populacional destes animais. Neste contexto, temos um colapso nas teias tróficas de modo que há um favorecimento para a reprodução e sobrevivência das águas-vivas, além do fato destas poderem conquistar novos habitats devido à ausência de predadores e competidores. 


(Clique na figura para ampliar)

Além das espécies que são alvo da indústria pesqueira, alguns animais são capturados acidentalmente pelas redes, ocasionando mortes além das planejadas. O impacto físico causado pelas redes, especialmente as de arrasto, também contribui para o aumento de animais que são mortos ou feridos durante a pesca. Desta maneira, a pesca promove o desequilíbrio das teias alimentares e das relações ecológicas dos ecossistemas, acarretando em alterações na sua estrutura.

Como exemplo destes fatos, temos o caso da superpopulação de medusas próximo à Namíbia (país sul africano), onde a pesca intensa dizimou populações de sardinhas, abrindo espaço para a dominação de águas-vivas. O colapso das populações de sardinhas diminuiu a pressão predatória das águas-vivas, favorecendo o aumento da oferta de alimentos, visto que as sardinhas e as águas-vivas também competiam pelo mesmo tipo de organismos marinhos para alimentar-se.
Aliado a esse colapso trófico, a pesca excessiva também contribui com a manutenção de um maior número de pólipos no ambiente. As redes de arrasto, comumente utilizadas em barcos pesqueiros, não penetram nas florações rochosas enquanto estas são deslocadas pela região bentônica. Porém, os pólipos colonizam tais florações rochosas que, neste contexto de pesca, tornam-se verdadeiros abrigos contra as redes de arrasto. Desta maneira, as colônias de pólipos são mantidas incólumes, possibilitando que um número maior de indivíduos chegue à fase de medusa.

(Clique na figura para ampliar)

Na próxima postagem abordarei as questões relacionadas à "Modificação de Habitats" e à "Translocação de Organismos".


domingo, 26 de setembro de 2010

Águas-vivas - Uma Visão Ambiental [AULAS 3 a 6 ]

OS ANIMAIS, O BICHO HOMEM E AS ALTERAÇÕES AMBIENTAIS

O fechamento da aula anterior possibilitou que você professor(a) e seus alunos chegassem ao fato de que o homem utiliza seu aparato cognitivo para se adaptar às diversas condições ambientais, tornando sua vida “mais fácil”. Todavia, esta característica do Homo sapiens possibilita que este coloque a natureza a seu serviço, dominando-a. Nesta condição de dominador, o bicho homem se convence de que é superior aos demais organismos, valendo-se desta falsa superioridade para justificar seus atos.
Nesta perspectiva, várias atividades humanas como a urbanização de regiões costeiras e a exploração dos oceanos são justificadas pelo “bem da humanidade”, mas são esquecidas as conseqüências ambientais que tais atos podem ocasionar. Sendo assim, as ações antrópicas e suas relações com os ecossistemas marinhos serão abordadas nosmomentos seguintes.
Para tanto, sugeiro a utilização da pesquisa como modalidade didática para a construção dos próximos conceitos. Conferir a postagem "A pesquisa como modalidade didática".

ATIVIDADES HUMANAS E ECOSSISTEMAS MARINHOS

Para trabalhar o conceito de desequilíbrio populacional, em especial aqueles relacionados às águas-vivas, acredito que o melhor caminho a ser trilhado é primeiramente compreender como as atividades humanas afetam os ecossistemas marinho e, posteriormente, associar estas modificações com o surgimento de superpopulações (ou blooms) de águas-vivas.
Para motivar o desenvolvimento das pesquisas, sugiro que as mesmas partam de um problema real, estimulando seus alunos a solucioná-lo pormeio da construção de  hipóteses e busca por informações que as embasem. Como problemática, sugiro a reportagem "Japão prevê perdas milionárias com invasão de águas-vivas gigantes" (22 de julho de 2009) publicada pela BBC (Clique aqui para acessar). Abaixo, o vídeo "Superpopulação de águas-vivas atrapalha a pesca no Japão" também aborda a problemática apontada pela reportagem anteriormente citada:



Após a leitura da reportagem, utilize novamente a técnica do brainstorm, convidando os alunos a pensarem nas possíveis atividades humanas que tem causado os desequilíbrios populacionais de águas-vivas. Após o levantamento das possíveis causas que podem influenciar as populações de águas-vivas, é chegada a hora de criar hipótese e pesquisar!
Caminhando em consonância com os pressupostos do ensino por pesquisa, após esta problematização inicial e o envolvimento dos alunos com o tema, solicite que os alunos se dividam em pequenos grupos (quatro a cinco membros por grupo) para a elaboração de uma pesquisa e, se for o caso, a construção e elaboração de hipóteses e argumentações sobre a relação entre atividades antrópicas e blooms de águas-vivas. Sugiro que cada grupo pesquise sobre uma determinada atividade humana e suas conseqüências para o ecossistema marinho e, em especial, para as populações de águas-vivas. Esta divisão será minimizada no momento da comunicação das pesquisas, visto que o fechamento desta requererá a integração das pesquisas desenvolvidas pelos estudantes para que os mesmos tenham uma visão global sobre a temática.
Para a realização das pesquisas e construção das hipóteses – etapa da construção de argumentos – proponho a utilização do laboratório de informática da sua escola, mais especificamente a internet como ferramenta para o aprofundamento do processo de busca, organização e sistematização dos dados. A internet auxiliará os alunos na aquisição e na coleta de informações necessárias que subsidiarão os mesmos durante a construção de argumentos para a fundamentação das hipóteses elaboradas, além do fato de a aprendizagem torna-se um ato criativo e interativo, ocorrendo também a valorização das informações trazidas pelos estudantes. Ainda neste contexto, a internet possibilitará o acesso rápido a um grande número de informações, podendo constituir-se em uma nova ferramenta didática para a construção e aprofundamento de saberes. 

Faz-se necessário ressaltar que as informações contidas na internet podem ser tanto corretas e, consequentemente, podem auxiliar na construção de novos argumentos, como incorretas e, portanto, prejudiciais à fundamentação das hipóteses elaboradas pelos estudantes. Neste contexto, é importante que você professor(a) e seus alunos desenvolvam e exerçam a habilidade de analisar criticamente todo o material coletado na internet. A análise crítica deve ocorrer também em outros meios de pesquisa como jornais, livros e revistas, pois estes também podem conter informações errôneas ou que possibilitem uma dupla interpretação que conduz a erros conceituais.

Ainda em relação às pesquisas, estimule seus alunos a parafrasear as informações encontradas, isto é, esclareça para seus alunos a importância de elaborarem os textos com suas próprias palavras, evitando os populares “CTRL+C” e “CTRL+V”. O ato de utilizar as próprias palavras para explicar algo é de extrema importância para que os processos de ensino e aprendizagem ocorram de maneira significativa. Utilizar seu próprio vocabulário significa mobilizar os processos de elaboração, de generalização e de síntese por parte dos alunos, implicando em uma apropriação do conteúdo de forma não-literal e não-arbitrária, ou seja, o aluno não copia e/ou reproduz, ele apreende o conhecimento e poderá utilizá-lo em situações diferentes daquelas em que este fora construído.
Abaixo, apresento alguns exemplos de sites que poderão subsidiar a busca por informações para a fundamentação de hipóteses e argumentos da pesquisa: 
Na próxima postagem trarei algumas informações sobre as atividades humanas e suas relações com as superpopulações de águas-vivas que poderá ser utilizado no processo de mediação entre seus alunos e o objeto de conhecimento durante a elaboração das pesquisas.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Águas-vivas - Uma Visão Ambiental [AULA 2]


O HOMEM E O MUNDO DE ORGANISMOS ÚTEIS E NOCIVOS

Para ampliar as discussões a cerca da visão antropocêntrica e utilitarista que o homem lança pra os demais animais, sugiro que o(a) professor(a) trabalhe com o conto “Da utilidade dos animais” de Carlos Drummond de Andrade. Este texto evidencia a relação utilitarista (quiçá escravocrata) que o homem estabelece com os outros animais, relação esta que muitas vezes se esconde sob o véu do “amor e respeito” que devemos possuir com os outros organismos.
Professor(a), não tenha receios de trabalhar com textos literários nas aulas de Biologia e/ou Ciências. Nossos objetivos não são o trabalho e
a significação de contextos lingüísticos e semânticos, mas a exploração de idéias que tais textos nos oferecem.
Por ser um conto breve, é possível explorá-lo por meio de dramatizações. Convide seus alunos a interpretarem os papéis dos personagens contidos no texto. Assim, será possível realizar uma leitura dinâmica e prazerosa do mesmo, fugindo das convencionais leituras em que somente uma voz (geralmente a do professor) é ouvida em toda a sala.
O referido conto também poderá ser explorado por meio de mídias digitais: o curta metragem dirigido por Betânia Vitor baseado neste conto de Drummond. Todavia, não podemos nos esquecer que as habilidades de leitura e interpretação devem ser favorecidas em situações de ensino,
e isto inclui as aulas de Biologia e Ciências. Desta maneira, mesmo que você professor(a) opte por trabalhar o conto por meio do curta metragem, forneça o texto escrito para seus alunos para que os mesmos possam retomá-lo sempre que necessário e exercitem tais habilidades.
(Para acessar o texto e o curtametragem, conferir a postagem Da Utilidade da Natureza)
Após a leitura do conto de Drummond (ou do curta metragem), indague seus alunos sobre as impressões e interpretações sobre o mesmo. Ao longo das discussões, estabeleça relações com as conclusões elaboradas na aula anterior. Isto favorecerá a ampliação dos conceitos de antropocentrismo e utilitarismo, visto que estes não 
se direcionam a determinado grupo de animais, mas para todos os organismos de nosso planeta. tais habilidades.
Assim como na aula anterior, sistematize no quadro-negro as questões levantadas pelos alunos durante as discussões. Isto os auxiliará na retomada de idéias ao longo do processo comunicativo estabelecido e também na tomada de notas.
Entretanto, é hora de avançar! Após percorrer o campo do antropocentrismo e do utilitarismo, é preciso agora compreender como se dá a relação do homem com o mundo e como esta relação afeta os demais animais (em especial, as águas-vivas). Para encerrar este momento, lance mais três questões para ser debatidas e refletivas por você professor(a) e seus alunos:
  1. Por que o homem esquece que é um animal inserido em um ecossistema?
  2. Em que medida nosso antropocentrismo influi nas relações que estabelecemos com o meio em que vivemos e com os demais animais que compartilham o planeta conosco?
  3. Como nós influenciamos/modificamos a vida dos animais?